“…tenhais o corpo como casa e a vida como alimento.”
anônimo, Século XV
“A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.”
Poema sem título
Fernando Pessoa 23-5-1932
(extraído do livro de bolso europa américa: Obra Poética de Fernando Pessoa
texto integral
Poemas de Alberto Caeiro)
Introdução, organização e bibliografia de ANTÓNIO QUADROS
ED.IB São Paulo – 1986

” São tão controvertidas as opiniões sobre a minha origem! Uns dizem que, antes mesmo da vida humana começar na terra, eu já estava no zunir dos ventos e no marulhar das águas; outros acham que vim do gorjear dos pássaros, do farfalhar das árvores ou que nasci do elemento primário da linguagem, a entonação. Na realidade, o que sei mesmo, é que a parte vital do meu ser foi constituída por dois elementos de extraordinária beleza, – o ritmo e o som – e que o homem, com a sua inteligência prodigiosa e o seu poder criativo, foi quem os uniu numa admirável simbiose, para que eu pudesse vir ao mundo, encantar a sua vida.
Passei a fazer da vida da humanidade, tornando-me universal, pois que a minha linguagem é a única compreendida por todos os povos.
Identifico e represento a terra de onde provenho, apenas pela individualização dos meus dois elementos constitutivos. Mas…eis a síntese das minhas funções:
Querem os jovens que eu seja moderníssima? Que relegue aquele passado cheio de glórias e encantos? Pois bem, com isso estarão levando-me para um caminho perigoso! – o da mediocridade.
Mas…tenho fé e esperança que o homem caia em si, e não me separe da beleza e da verdade para que eu possa, em toda a plenitude, voltar a ser a verdadeira música que sempre agradou a humanidade e que tanto bem fez ao seu corpo e à sua alma.”
A musicista e musicoterapeuta Clotilde Espínola Leinig – que implantou pioneiramente a disciplina de musicoterapia em um curso de especialização, no Brasil, em Curitiba, na segunda metade da década de 1960 – e que, em 2003, recebeu, em solene cerimônia, pelo Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão, CEPE, da Universidade Federal do Paraná, o titulo de Doutor Notório Saber, na área de Saúde em Musicoterapia - ao compor o artigo/poema acima, deixa explícito o seu envolvimento visceral com a música.
Note que a Drª Clotilde narra na primeira pessoa como se fosse a própria arte das musas se expressando.
Imaginem só: ela trouxe a semente do que hoje é uma das profissões do (e de) futuro do século que se inicia, por volta de 1969. Em 1973, na Universidade Del Salvador, na Argentina, participou da Jornada de Observção em Musicoterapia na Escola de Disciplinas Paramédicas. Cursou Terapêutica da Música no Rio de Janeiro – RJ, pelo Conservatório Nacional de Canto Orfeônico e, em Curitiba – PR, estruturou a Faculdade de Educação Musical do Paraná (antigo Conservatório de Canto Orfeônico do Paraná).
Finalmente, em 1982, depois de incansável esforço conjunto – contando com a imprescindível participação do Dr Paulo de Tarso Monte Serrat, médico psiquiatra e psicanalista – conquistou a aprovação do, então, Ministério da Educação e da Cultuta – MEC, para oferecer ao Brasil mais um cuso de graduação em Musicoterapia.
É aqui que nossos caminhos se cruzam: em fevereiro de 1983, na aula inaugural, para a primeira turma do curso de graduação em musicoterapia do sul do Brasil, entre outros eminentes professores e professoras (artistas), nos deram um banho de cultura e entusiamo, a Drª Clotilde, o Dr Paulo de Tarso e os principais “obreiros” da construção de uma nova proposta de saber, instigando, provocando nos jovens estudantes/artistas que passaram naquele primeiro vestibular, o desafio da busca, pelo infinito universo das possibilidades de se utilizar os sons e a arte musical como recurso de qualidade para a saúde, para a educação, para a comunicação, para a criatividade…
Então, o artigo/poema ‘Apologia à Música’, tem que ser interpretado em seu contexto histórico e artístico para ser adequadamente entendido por quem o lê.

Quando senti estruturada a fundamentação teórica, isto em 1993 - após sete anos de estudo e pesquisa concentrados sobre as possibilidades de capacitar as gestantes e famílias grávidas a utilizarem o som e a música como recurso de qualidade para o estabelecimento da comunicação e do relacionamento com os seus bebês desde a gestação – tive a preciosa oportunidade de realizar palestras para grupos de gestantes e de casais grávidos apresentando-lhes, em linguagem acessível e prática, a base do que viria a ser o método de musicoterapia para gestantes e famílias grávidas Bebê do Futuro.
O feedback, essencial para a lapidação da prática clínica e maturação do método que estava nascendo, desenvolveu-se espontaneamente. Questões levantadas pelas famílias após as exposições suscitavam desafios permanentes que remetiam a novos estudos e pesquisas (e isso num tempo sem buscadores e fácil acesso à informática – eu era um rato de livrarias, bibliotecas e sebos. Hoje sou um mouse de internet).
Em 1996, quando meu filho Bruno nasceu e lancei meu primeiro livro, envolvido e entusiasmado com os resultados das palestras e das sessões de musicoterapia com as gestantes e famílias grávidas, com a relação com meu próprio bebê, e antes de batizar o método que estava desenvolvendo, me veio esta expressão que sintetizava, de maneira simples e popular, todas as pesquisas científicas a que tive acesso até então: O Som é o Cartão de Visitas da Vida.
De todos os sentidos que o feto humano desenvolve neurofisiologicamente, na espetacular experiência intra uterina, o que mais o prepara para a vida após o parto é a audição. Antes de ver, tocar, cheirar e sentir o gosto da realidade ao ar livre, ele a experimenta por intermédio das vibrações sonoras. Destaco com veemência a voz humana: a voz da mãe gestante, embutida que está, e a voz de quem se manifesta verbalmente (falando, contando histórias e cantando) próximo ao ventre materno.
É através dos sons que temos nosso primeiro contato com a vida que nos espera “lá fora”.
Instigante é a questão do estabelecimento da memória auditiva nos circuitos neuronais do feto. E o desenvolvimento tecnológico aliado aos critérios cada vez mais precisos dos cientistas que se debruçam sobre esta capacidade humana essencial, nos oferece resultados e definições cada vez mais claras e surpreendentes que não podem e não devem ficar restritos aos círculos acadêmicos. Faz-se necessário informar as gestantes e as famílias grávidas, de forma igualmente clara, que elas podem estabelecer a comunicação e o relacionamento com seus futuros bebês desde a gestação, principalmente utilizando a energia da vibração de suas vozes. E que já estão imprimindo na memória insipiente do feto seus timbres, frequências e entoação – características físicas únicas de cada indivíduo. O som de nossa voz é como uma impressão digital sonora que nos diferencia sutilmente uns dos outros. São sete bilhões de vozes distintas em nosso pequeno planeta.
E esse é um dos objetivos principais do método Bebê do Futuro: informar e capacitar as gestantes e famílias grávidas sobre a utilização da voz para apresentarem-se, e apresentarem um importante aspecto da vida, aos bebês em gestação.
Simplificando e reforçando: o som é um referencial de conforto para o bebê após o nascimento.
Mães, pais e familiares, falem, contem histórias e, principalmente, cantem para seus bebês desde a gestação. Esse estímulo será um destacado elo de ligação entre a vida intra e extra uterina.
Mesmo que ao feto não seja possível, pelo menos pelas leis da acústica, ouvir as palavras articuladas - visto que ele está imerso no líquido amniótico - como as ouvimos aqui ao ar livre, ele já é sensível ao timbre e entoação embutidos nessas mesmas palavras. E tem que se considerar também o ciclo de sono e vigília (ciclo cicardiano) do bebê em gestação: ele dorme de 18 a 20 horas por dia. Está em estado de vigília, somente o tempo restante e em períodos indeterminados e oscilantes. Após o nascimento, aí sim, ouvirá essas mesmas palavras só que agora articuladas e aprenderá o idioma e o sotaque paulatinamente.
Neste site www.bebedofuturo.mus.br tento apresentar a essência de 18 anos de dedicação prática exclusiva como musicoterapeuta de gestantes e famílias grávidas. Espero ter sucesso. É um compromisso pessoal com a qualidade do futuro do mundo…